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Relações de confiança e liderança na sala de aula

Quando o assunto é o futuro da educação comumente nos deparamos com termos como Educação 4.0 (até 5.0) e diversas novas metodologias de ensino (Sala de Aula Invertida, Peer Learning, etc…) que tem como foco trabalhar uma série de habilidades em nossos alunos que sejam complementares às tradicionais, e importantes, habilidades do campo cognitivo. Cada vez mais instituições de ensino vem procurando incorporar essas práticas em suas atividades acadêmicas e, consequentemente, construir um currículo mais completo para seus alunos e que valorize mais as habilidades socioemocionais.

Dentre as várias características que são trabalhadas e estimuladas nas atividades com nossos alunos, algumas das mais citadas pelos responsáveis estão diretamente relacionadas com a questão do espírito e atitudes de liderança. Afinal, ao olhar a descrição de uma vaga para gestores na maioria das grandes empresas, você verá que estão à procura de alguém capaz de “liderar equipes” e com “postura de dono”. Mas como é possível desenvolver isso nos alunos? Bom, não creio ser possível fazer isso sem antes trabalhar e estimular essas mesmas características em nossos professores, e já há um movimento, cada vez maior, de escolas que pensam da mesma forma.

Progressivamente, as contratações de professores vêm sendo guiadas não só pelas suas habilidades técnicas, mas também pela sua forma de pensar, agir e como suas emoções são desenvolvidas e trabalhadas. E isso não é obra do acaso. Somos movidos por inspirações, principalmente as pautadas por atitudes.

É claro que não existe uma fórmula mágica ou manual que nos ensine a ter uma postura genuinamente de liderança ao longo de nossas vidas. Tão pouco as atitudes mais impactantes precisam ser, necessariamente, aquelas com maior repercussão. Às vezes, gestos simples, dentro de nossa própria sala de aula já podem fazer toda diferença.

Separamos uma série de dicas que podem ser colocadas em prática já nas próximas aulas e que também servem como fonte de reflexão para nossas atitudes como profissionais. Lembre-se que a liderança pode se manifestar de várias formas e através de pequenas atitudes no dia a dia e nos ajudar em diversas questões relacionadas ao trabalho docente.

1) O respeito com o aluno começa com o exemplo dos professores

  • Evite dar apelidos aos alunos: as vezes até estamos mentalizando algo positivo para os alunos, pensando no apelido como uma forma carinhosa de tratamento, mas, não temos controle sobre como essa mensagem chega para os demais colegas da turma e, certas vezes, pode ser mal interpretado pelo próprio aluno. Na dúvida, chame pelo nome e vou te dizer: os alunos adoram ser chamados pelo nome, pois isso mostra que os professores os conhecem e eles são mais do que um número na chamada.

  • Tenha cuidado com os limites de uma brincadeira: pense sempre se uma brincadeira inocente pode dar margem à dupla interpretação ou soar como ofensiva. Além disso, ao fazer uma brincadeira, de que tipo for, damos margem para que os alunos façam conosco também. Outra consequência é que muitos estudantes, ao presenciarem uma brincadeira, podem entender como uma carta branca para continuar o que você começou, fora da sala de aula. Uma aula pode ter tom descontraído, sem necessariamente expor A ou B. Na dúvida, sempre brinque consigo mesmo.

  • Respeite os horários: assim como nós gostamos de ter uma hora do almoço tranquila, nossos alunos também valorizam bastante seus horários de entrada e saída da sala de aula. Inclusive, uma das maiores fontes de reclamação dos alunos que aparecem em pesquisas de opinião tem conexão com o respeito aos horários. É claro que imprevistos acontecem, mas a pontualidade é uma prática necessária em qualquer ambiente profissional, assim como a sala de aula é para nós. Se a aula está terminando depois do horário ou começando atrasada, levante os pontos que podem estar influenciando. Será que estou ficando tempo demais na sala dos professores? Será que estou dimensionando mal o horário das minhas aulas? Uma coisa é certa, aulas que começam e terminam pontualmente também mostram respeito aos alunos que estão cumprindo as regras e estimulam que os demais também o façam.

  • Seja cordial e profissional: nossos alunos fazem parte de uma grande estrutura que é a instituição de ensino. Assim como devemos ser cordiais e educados com qualquer pessoa, em qualquer lugar, a sala de aula não é uma exceção. Os alunos tendem, naturalmente, a seguir o exemplo de tratamento dos professores e a grande verdade é que as vezes nem percebemos que estamos tendo uma reação mais ríspida e isso pode ser um sinal de um desgaste de relacionamento com a turma ou às vezes acabamos importando os problemas pessoais para dentro da sala de aula. Converse com a coordenação se a situação não estiver boa, tanto do ponto de vista pessoal, quando do relacionamento com a turma. Qualquer aula particularmente estressante precisa ser apontada para que não se transforme em uma bola de neve.

  • Quando for o momento de ouvir, ouça de verdade: uma das grandes virtudes dos líderes mais destacados tem muita relação com sua capacidade de, genuinamente, ouvir o que nos é dito. Se pedir a opinião dos alunos, não as descarte. Quando um aluno pedir para conversar, encontre um tempo disponível e ouça o que ele tem a dizer. Caso seja uma situação que fuja da sua alçada, explique que precisará conversar com a coordenação ou orientação pedagógica e que o problema será resolvido.

2) Disciplina faz bem

Estruturas pautadas em disciplina não fazem nenhum mal para nossos alunos, ao contrário. Veja que qualquer CEO de grandes empresas tem suas rotinas e é disciplinado para cumpri-las. Não podemos colocar a disciplina para alcançar um objetivo no mesmo pote do autoritarismo e da inflexibilidade. Algumas pequenas doses dessa disciplina para cumprir regras podem, e devem, ser apresentadas todos os dias na sala de aula. Vale ressaltar que muitos professores tem receio de primarem por uma maior disciplina em sala por conta de pesquisas de opinião. Uma ótima notícia quanto a isso: a grande maioria dos alunos costuma avaliar melhor os professores que conseguem criar os ambientes mais disciplinados (não autoritários) dentro da sala de aula.

  • Combine as regras de boa convivência logo no primeiro dia de aula: aqui entram diversos tópicos que podem ser encarados como acordos de boa convivência, tão comuns ao nosso redor. Uma boa dica é sempre mostrar o porquê daquelas regras de boa convivência, principalmente para os alunos mais velhos que são, naturalmente, mais questionadores e tem um desejo ardente de independência e seguir suas próprias regras. Cuidado para não colocar regras que fujam, efetivamente, de uma boa convivência, mas balizar questões como conversas paralelas, idas ao banheiro e formas de levantar dúvidas se mostrarão úteis no relacionamento ao longo do ano.

  • Lidere pelo exemplo: como foi dito, a melhor forma de inspirar atitudes de liderança é tendo esse tipo de atitude. Não adianta combinar com os alunos que o celular em sala de aula será usado apenas quando solicitado pelo professor e, a cada intervalo para os alunos copiarem, sentar para dar uma olhadinha no seu mobile. Podemos dar o exemplo em pequenas atitudes. Viu uma bolinha de papel no chão? Siga a aula e, naturalmente, pegue-a e jogue no lixo. Pronto! Sem dizer nada você mostrou para os alunos que se importa com a conservação da sala e que ninguém é bom demais que não possa jogar uma bolinha de papel no lixo.

  • Dê feedback imediato aos alunos: um dos itens que mais sentimos falta enquanto alunos é de um genuíno retorno sobre nosso desempenho e sugestões para que possamos continuar melhorando. Mas isso não é culpa direta dos professores, afinal 98% dos professores do mundo nunca ouviu de seus gestores um feedback que fosse além de “Satisfatório” (https://www.youtube.com/watch?v=81Ub0SMxZQo esse é um link para uma palestra do Bill Gates falando sobre o tema “Professores precisam de um feedback de verdade”). Os alunos precisam de um guia e muitos tem a expectativa de encontra-lo na figura dos professores. Procure parabenizar os alunos que vencem a timidez e fazem perguntas. Elogie boas participações na aula e atitudes que merecem ser compartilhadas. Caso encontre algo incoerente com os acordos de convivência, aja imediatamente e, caso sinta necessidade, leve o caso à Orientações Pedagógica para verificar o que está acontecendo.

  • Construa um trabalho em parceria com a coordenação: lembre-se que de nada adiantará todos os seus esforços para construção de um ambiente disciplinado se você não estiver alinhado(a) às diretrizes e à cultura da instituição. Balize todas as ações no começo do ano com a Coordenação Pedagógica e mostre, claramente, qual será sua linha de trabalho. Se encontrar resistência ou sentir que suas ações não serão efetivas, não desanime e comece a pensar em locais de trabalho mais compatíveis com sua filosofia de ensino.
 
  • Quando e como retirar alguém de sala: esse é uma das perguntas mais feitas e não somente por professores em início de carreira. É claro que retirar um aluno de sala sempre é uma situação desagradável para ambos os lados. Contudo, se você tiver o aval da coordenação para poder atuar dessa forma em casos já definidos, não tenha medo. O ideal é geralmente seguir a regra dos 3 avisos: alerte no primeiro, reforce no segundo e atue no terceiro. A retirada de sala não é necessariamente uma falha nossa como educadores. Ao retirar alguém de sala, você reforça seu compromisso com o resto da turma e abre uma oportunidade para que outros profissionais da escola possam entender melhor a condição atual do aluno e proporcionar a ajuda apropriada. Lembre-se que as retiradas de sala devem ser feitas de forma firme e cordial. “Com licença, lembra do nosso acordo? Esse é o terceiro aviso e, por conta disso, vou pedir que você se dirija à coordenação/orientação, por favor”. Pronto. Espere o aluno sair e continue a aula normalmente, sem sermões sobre a desvalorização do ensino e sem expor, ainda mais, aquele aluno.

3) Humildade para errar e aprender

Nas melhores aulas, professores e alunos aprendem: para nós que trabalhamos intimamente com o processo de ensino e aprendizagem deve ser natural estar disponível para receber novas ideias e percepções sobre uma mesma situação. Sempre temos algo novo a aprender, principalmente com nossos alunos. Além de nos fornecerem perspectivas sobre alguns tópicos com um olhar de outra geração, a dúvidas e equívocos deles também contribuem muito na hora que procuramos entender a forma como estruturam raciocínios e o que podemos desenvolver para ajuda-los mais.

  • Reduza o medo dos alunos de errar: ao longo das aulas precisamos dar liberdade para os alunos pensarem, errarem e proporem soluções diferentes sem descartar ideias. Nas salas de aula em que o erro é encarado como uma situação constrangedora, o medo de errar pode se propagar por toda vida acadêmica e profissional e ser revertido em efeitos bastante delicados. Ouço muitos professores dizendo que “fazer os alunos pensarem é um grande desafio hoje em dia”. Não creio que pensamento e imaginação estejam em falta no estoque dessa geração. Acontece que as grandes conexões e a exposição excessiva gerada pela internet podem inibir vários alunos e, consequentemente, o medo dos julgamentos, inclusive por parte dos professores, gera um bloqueio. Incentive que os alunos exponham suas dúvidas e ideias com mais frequência, sem nunca deixar de conduzi-los ao caminho certo.

  • Professores também erram: tão normal, como em qualquer ser humano, o erro também acompanha o dia a dia dos professores. As vezes por conta de uma distração, acabamos embolando explicações e a mensagem não sai exatamente como esperávamos. Tudo bem. Mantenha a calma e diga aos alunos que se equivocou. Comece novamente e explique com naturalidade. Não tenha medo de dizer que cometeu um erro e eles não terão medo de se predispor a errar.

  • Não somos a personificação do Google: a internet mudou a forma como o conhecimento é compartilhado e, naturalmente, os alunos mais interessados podem se aprofundar tanto em um questionamento que nós não saberemos responder. A solução? Simples, diga que a pergunta é excelente e que você não sabe a resposta, mas que vai procurar e trará na próxima aula, sem falta. Isso servirá de modelo para vida deles. Afinal, eles podem se deparar no trabalho com diversas situações para as quais não tem respostas prontas e que necessitarão de pesquisa e mais reflexão.

 

Lembre-se que eles nos observam e muitos se espelham em nossas atitudes. Procure ser mais receptivo(a) aos feedbacks da coordenação e às opiniões dos alunos sobre alguma atividade.

Por fim, uma dica tão importante quanto as anteriores: valorize o que há de melhor nos seus alunos. Nem todas aquelas pessoas na sala de aula tem a mesma forma de aprender. Alguns aprenderão melhor por vídeos, outros com desenhos. Você encontrará alunos que só entendem quando colocam a “mão na massa” e outros que tem uma incrível capacidade de abstração. Há alunos mais sensíveis e outros, mais objetivos. Sempre podemos fazer um pouco mais para atingir um grupo cada vez maior.

Nossa despedida hoje será com a rápida história de Gillian Lynne. Quando era criança, Gillian não estava indo tão bem nas matérias da escola e, por consequência, sua mãe foi orientada a levar a filha a um especialista. Depois de conversar por um tempo, o doutor convidou a mãe para conversar do lado de fora da sala. Ao olharem pela janela viram Gillian em pé e dançando conforme a música que tocava em um rádio. No final de contas Gillian não estava doente, ela era uma dançarina. Finalmente, ao entrar na escola de dança, a menina descobriu que haviam outras pessoas que, assim como ela, pensavam melhor em movimento. Dotada de um talento natural, Gillian Lynne recebeu diversos prêmios ao longo de sua vida como bailarina e foi responsável por duas das coreografias mais aclamadas da história da Broadway: Cats e O Fantasma da Ópera.

Para saber mais sobre essa história fantástica, veja o vídeo da palestra de Sir Ken Robinson no TedTalks

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